Tem cara de quê?

Por Marianna Mafe

Karina recebeu o diagnóstico de autismo do filho aos 30 anos, grávida, lotada de trabalho e com um barrigão que transformava qualquer movimento em uma maratona. Entre a expectativa pelo novo bebê e os hormônios em ebulição, a palavra “autismo” pesava ainda mais.

— Se eu fosse você, não me preocuparia tanto. Hoje em dia, tudo é autismo. Toda criança tem um diagnóstico para tirar do bolso.

Karina suspirou.

— Tia, não é uma doença. É um padrão comportamental. Um transtorno. Uma forma diferente de existir. Eu li bastante sobre o assunto. Outra hora te explico melhor. Acho importante a senhora saber.

— Mas o médico confirmou?

— O diagnóstico?
— Isso

— Sim, confirmou! Ele está no espectro autista. Descobrimos há um mês. Agora estamos correndo atrás das terapias. Ele tem falado poucas palavras, parece até que esqueceu outras que já sabia.

— Ah, mas essa questão da fala é relativa. Cada um tem seu tempo! Seu irmão, então… achávamos que era mudo. Depois que começou a falar, nunca mais parou.

Tia Odete era um fenômeno: a melhor e a pior pessoa para se ouvir. Trazia café fresco, pão de queijo e, de brinde, o discurso que Karina queria—ou precisava—escutar. Suavizava as dificuldades e empurrava a criança para a adequação social.

— Outra coisa, se for mesmo autista, deve ser bem leve. Ninguém percebe se você não contar.
Karina fechou os olhos por um segundo.

— Hoje essa classificação não é bem assim. Cada um precisa de níveis diferentes de suporte. O Nathan está inserido no nível dois de suporte, o que significa que precisa de ajuda moderada para fazer o que outras crianças fazem naturalmente. Depois te explico melhor.

— Entendi, minha filha. Quero saber mesmo. E eu posso ajudar de alguma forma?

— Te agradeço muito, tia. Agora estamos focados nas terapias: fono, ocupacional, psicóloga que aplica ABA… e o plano de saúde é uma burocracia sem fim. Preciso resolver tudo antes do parto. Mas, são coisas que só eu posso fazer por mim e por ele.

— Faz uma coisa de cada vez, tente não se estressar. E coloca nas mãos de Deus. Se Ele quiser curar, Ele cura.

Karina estava cansada demais para argumentar. Ainda precisava buscar o filho na escola e conversar com a professora, que já tinha dado sinais de desespero – talvez despreparo. Nathan não ficava sentado por um minuto, fugia da sala e destrancava portas internas como se tivesse nascido com um manual de fechaduras nas mãos.

As primeiras sessões de terapia começaram a ocupar as manhãs de Karina. Grávida, publicitária e agora acompanhante terapêutica do próprio filho, ela viu a rotina da família orbitar em torno das novas demandas.

A família agora só pensava em incluir o filho na programação de crianças de três anos. Afinal, ele precisa se socializar para evoluir. No mesmo dia em que o plano de saúde negou uma das terapias era aniversário de um colega da escola.

Antes mesmo de sair de casa, começou o caos: gritaria no banho—”a água machuca a cabeça”—, reclamação do sapato, do tecido da bermuda, da etiqueta da blusa,e a repetição infinita da palavra “aniversário”.

No salão de festas, o túnel de balões azuis anunciava o que viria: mais de vinte crianças seguiam comandos de palhaços hiperativos. O microfone estourado disputava o volume com a Galinha Pintadinha, gritos animados e choros sentidos.

Nathan encolheu-se entre as pernas da mãe, tapou os ouvidos e começou a balançar os dedos sobre as orelhas.

Os olhares ao redor foram automáticos. Karina ignorou. Segurou o filho e voltou pelo corredor de balões. Na calçada, ele aninhou-se sobre o barrigão da mamãe, como se ali o mundo fizesse sentido.

Ao lado, outra mãe mostrava a decoração da fachada para a filha. Um consolo, talvez? A tal da sororidade na prática?

— Ele não gosta de bagunça, né? Nem de barulho.

— Verdade. Prefere o silêncio.

— A Aurora é do fundão, adora uma festa. Acho que é personalidade.

Karina hesitou. Depois, resolveu simplificar:

— Também. Mas ele está no espectro autista. É parte das particularidades do transtorno.

A mulher arregalou os olhos.

— Nossa. Nem parece!

Karina suspirou e sorriu de canto. Era sempre assim. Nathan não parecia autista. Até parecer.

Marianna Mafe é jornalista, sócia-diretora de uma agência de marketing e apaixonada pelas palavras. Entre uma campanha e outra, com humor e reflexão, se dedica a desvendar as histórias do cotidiano que estão ao nosso redor, mas nem sempre são percebidas.

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