‘Sou evangélica e vou em casas de swing’: é possível combinar desejo sexual e religião?
Mulheres que exploram sexualidade livremente falam como suas relações com a religião foram transformadas depois de começar a fazer swing
Jennifer*, 48 anos, vivia um dilema entre fé e desejo: é evangélica, filha de pais pastores e sempre teve muita curiosidade sobre swing (a troca de casais). No primeiro casamento, não teve liberdade de tocar no assunto, mas começou a se informar sobre não monogamia e poliamor em livros e revistas. “Criava na minha cabeça o que achava que era estar dentro do swing”, conta.
Tudo mudou há seis anos, quando começou o segundo casamento. “Ele também tinha muito interesse e fomos conhecer juntos uma casa de swing. Ao entrar fiquei chocada, pensei que era o próprio inferno. Ao mesmo tempo, tive vontade de conhecer, tocar nas pessoas e ser tocada”, lembra.
Para os evangélicos, transar só é permitido depois do casamento, e morar junto de outra pessoa sem casar é visto como pecado. Além disso, tanto o sexo liberal como outras formas de sexualidade “não convencionais” são vistas como “afastamento de Deus”, “perversão” ou mesmo uma “banalização do sexo”.
Por ter crescido nessa cultura, Jennifer entrou em conflito muitas vezes. Afinal, é possível ser uma mulher evangélica e desejar sexualmente coisas que a religião ensina serem tão “sórdidas”?
“A culpa foi latente dentro de mim por muito tempo. Chegava em casa, olhava para meus dois filhos adolescentes e pensava ‘Que tipo de mãe eu sou? O que estou fazendo?’ Foi difícil aceitar que, independentemente da religião, posso sentir prazer e ter liberdade com meu marido, ao mesmo tempo que posso ter minha crença”, conta.
Conforme o tempo passava, ela conheceu no swing e na cultura de sexo liberal diversas amigas que, como ela, têm a própria fé e buscam explorar seus desejos e sexualidades. Mas ninguém de seu ciclo religioso sabe. “Eu seria expulsa da comunidade”, explica Jennifer, que acrescenta que já parou de frequentar a igreja por “outras divergências sobre pastores que pregam a santidade, mas fazem o contrário”. “Nunca deixei minha fé. Faço minhas orações e acredito na palavra de Deus dentro de uma coerência.”
‘O fato de eu fazer swing chocou a comunidade evangélica’
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A psicóloga e sexóloga Marina Rotty conhece bem o dilema vivido por Jennifer. Ela própria era evangélica e tinha influência na comunidade: foi cantora gospel em um grupo famoso, gravou CDs e DVDs e chegou a ter uma música muito conhecida. Hoje, não acredita em nenhuma religião.
“O fato de eu ser swinger foi chocante em toda comunidade evangélica, não só em minha denominação”, afirma. Ela e o marido, Marcio, foram para uma casa de swing pela primeira vez em 2006 e nunca mais pararam; também se tornaram referência de relacionamento liberal no país.
Depois de conceder uma entrevista, um parente os reconheceu, depois outro e outro, até que a situação foi parar na igreja. “Os maiores ataques foram direcionados aos meus pais, que recebiam ameaças, intimidações e fotos minhas pelo correio. Trabalhava com coral infantil, então muitas pessoas questionaram minha profissão”, diz.
“Que absurdo, trabalhar com crianças e ser sexualmente livre. Como se eu fizesse swing enquanto dava aulas”, ironiza.
Afinal, é possível continuar frequentando espaços religiosos e seguir a própria fé podendo viver plenamente a sexualidade, desejos e fetiches? Para Marina, a resposta é sim, mas há duas condições: “Que ninguém nunca saiba e reestruturando crenças pessoais, princípios e valores”.
Por que swing é tabu em comunidades religiosas?
Enquanto sexóloga dentro de um casamento liberal que já teve uma crença religiosa, Rotty analisa que é impossível analisar o embate “religião vs sexo” sem levar em conta a história e o feminismo; e que se deve levar em conta que, mesmo nos espaços evangélicos (em que as práticas sexuais são restritivas para todos), mulheres seguem sendo mais julgadas do que os homens.
Afinal, há uma série de exemplos de homens que se definem como “de Deus” que traem. Uma pesquisa de 2024 do site de relacionamentos extraconjugais Ashley Madison revelou que, nos Estados Unidos, 48% de seus usuários eram protestantes ou evangélicos, e 23%, católicos.
Vale lembrar que, em dezembro, viralizou na internet brasileira o vídeo de uma mulher que expôs, no meio de um culto, prints de conversas de seu marido pastor com outra frequentadora da igreja. Ambos tinham uma relação fora do casamento (o que, na religião evangélica e em muitas outras, é vista como pecado).
“Desde o início dos tempos, na criação do mundo, a mulher é a traíra, impostora, sedutora, portadora do mal que entrou no Éden. O homem, não. Ele sempre foi influenciado por ela, seja pelos encantos ou perspicácia. A culpa nunca é dele”, diz, referenciando Adão e Eva e o livro Gênesis do Antigo Testamento.
Como exemplo disso, afirma que enquanto ela foi criticada, questionada e julgada por ser swinger, o marido não foi. Pelo contrário, “insinuam que eu, sua mulher, o convenci a ir na casa de swing”. “Essa ideia é tão poderosa que persistiu ao longo dos séculos. As mulheres são ensinadas na maioria das religiões a serem submissas a seus maridos porque está escrito na Bíblia”, complementa.
Enquanto psicóloga e sexóloga, o que Rotty incentiva sempre é que mulheres explorem a própria sexualidade da forma como acharem melhor e serem abertas com seus desejos. Não necessariamente todas vão querer ir a uma casa de swing e baladas liberais, mas podem se autoconhecer, usar vibradores, se masturbar e entender o próprio prazer. “A sexualidade das mulheres foi travada histórica e socialmente. É nela que o destrave precisa acontecer”, diz.
*O nome foi alterado a pedido da entrevistada para preservar sua identidade