O Tombo

Quando jogadores de futebol levam um “tranco”, às vezes nem tão forte, caem de forma teatral. A atitude se presta para chamar a atenção do árbitro e, dessa forma, conseguir a marcação de uma falta, portanto manter a posse da bola, ou que o adversário seja advertido ou expulso, com um cartão: amarelo ou
vermelho.

No caso de uma pessoa que tenha sofrido lesões decorrentes da poliomielite ou por outro motivo, a forma espalhafatosa quase sempre tem outra conotação. Quando as pernas são frágeis, atrofiadas, a desenvoltura do tórax e dos membros superiores elevam o centro de gravidade da pessoa. Essa é uma das razões para o constante desequilíbrio e frequentes quedas, que podem causar danos ou risos decorrente da cena tipo “pastelão” cinematográfico.

Nas situações em que uma pessoa tropeça, por exemplo, é relativamente simples reorganizar o próprio movimento e retomar a posição ereta. Para tanto, aumenta a dobradura do joelho e reduz o ângulo entre o pé e o tornozelo. Dessa forma pode-se ultrapassar o obstáculo que provocou o titubear e, em seguida,
desfazer os movimentos para apoiar o pé no chão e continuar a caminhada. Todavia, para quem, como eu, não tem pleno controle sobre esses movimentos, o jeito é cair da melhor maneira possível, para evitar maiores danos.

Considerando que são os braços e o tronco que assumem a obrigação de proteger a pessoa em tais circunstâncias, estes devem estar aptos a fazê-lo em emergências. O ajuste automático às vezes aparenta estardalhaço, pois quem cai pode precisar girar o corpo ou a cabeça de forma a se proteger do impacto.

Uma série de fatores definem, no curtíssimo espaço de tempo entre o desequilíbrio e o tombo, qual a melhor estratégia para a consequência mais favorável. Então, o contorcionismo que lembra o exagero, na verdade é o instrumento de eficiência para resguardar aquele que cai. As pessoas próximas a mim sabem que quando começo a cair, o melhor é não tentar me ajudar, porque, se segurarem meus braços, por exemplo, estão tirando a única ferramenta de que disponho para evitar ferimentos. O que não implica dizer que vou conseguir, sempre, me proteger.

No dia 1º desse ano de 2025, ao tentar ficar de pé, o aparelho ortopédico se abriu e usei o braço esquerdo como anteparo. Resultado: desloquei o ombro com muita dor e luxação muscular. No dia seguinte, já se percebiam as machas roxas que se espalhavam pelo braço que doía muito. Naturalmente a recuperação, no meu caso, não é tão rápida, porque dependo muito dos braços, até para algum
deslocamento e para me sentar ou levantar.

Desafortunadamente, ninguém viu o acontecimento, que deve ter sido hilário. Por sorte, estamos recebendo visitas que me ajudaram sobremaneira. Sem eles seria necessário utilizar os serviços do SAMU. Com certeza nem conseguiria me erguer do chão por causa das fortes dores que praticamente imobilizaram meu braço esquerdo. Comecei o ano com o pé esquerdo. Estou na torcida para que esse tenha sido o último tombo do ano.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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Site: Mário S. R. Ananias – Sobre Viver com Pólio (mariosrananias.com.br)

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8 Comments

  • Estar contigo nesse momento me faz repensar em todas as vezes que cada tombo que eu levei na vida e refletir que o crescimento e desenvolvimento depende desses momentos, não só fisicamente.

    Cada tombo que você sofreu te fez se adaptar e buscar melhores maneiras para evitar tanto os tombos quanto as feridas.

    Estar ao seu lado e entender como curar suas feridas e entender suas maneiras não é fácil, mas mesmo com toda dificuldade, quando eu era pequeno, você me ajudou inúmeras vezes a me reerguer, e por isso hoje faço com muito orgulho e agradecimento a tudo que fez por mim.

    Estou aqui por você pai. Espero que seja sim o ultimo tombo desse ano, mas mesmo que tenha outros, pode contar comigo.

  • Mário, seu texto é brilhante! A comparação inicial com jogadores de futebol é perspicaz e prende a atenção. Você equilibra sensibilidade e humor ao abordar desafios tão complexos, explicando-os de forma clara e didática.

    O relato pessoal enriquece a narrativa, trazendo autenticidade e humanidade. A leveza com que você trata uma situação difícil, sem perder a profundidade, é admirável. Parabéns por esse texto tão envolvente e reflexivo!

  • O reflexo de tentar evitar ou se proteger de uma queda é muito rápido, quase em milésimos de segundo. Instintivamente, buscamos a melhor forma possível de nos equilibrar, o que, muitas vezes, chega a ser cinematográfico, arrancando risos de quem presencia a cena. Fico imaginando como os jogadores conseguem realizar essas façanhas durante o jogo. Mário, desejo melhoras a você! Sei que você leva tudo na esportiva, e é justamente essa leveza que torna a vida mais tranquila e alegre.

  • a forma natural e, por vezes, bem-humorada com a qual o autor fala sobre seus desafios e dificuldades é realmente inspiradora, principalmente porque vivemos um tempo de vitimismo sensacionalista extremamente maçante. Parabéns!

  • Isso é uma realidade. Infelizmente.
    Obrigado!

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