Bicho-papão de hoje: jovens revivem o tradicional Gorila de saco nas redes sociais e nas ruas

Vestidos de tiras de plástico e máscaras assustadoras, grupos se fantasiam e espalham cultura

Os Gorilas de saco são uma variação dos bate-bolas, com “pelo” feito por tiras de sacolas plásticas e máscaras assustadoras. São pouco falados, mas inesquecíveis para quem já os viu. Durante o carnaval, surgiam à noite em áreas da periferia do Rio, amedrontando crianças e incorporando a energia selvagem do animal. Embora a tradição tenha sido forte nas ruas das zonas Norte e Oeste, foi se apagando aos poucos. Hoje, pequenos grupos reacenderam a cultura, desfilando em bairros como Campo Grande, Penha e Padre Miguel.

Mais do que um susto, os Gorilas de saco se tornaram uma febre entre jovens, que se fantasiam, formam coletivos e espalham a tradição pelas redes sociais. O revival da fantasia, no entanto, não apaga o fato de que sua história é frequentemente ofuscada pelos Clóvis — os bate-bolas criados nas décadas de 1930 e 1940, que, com sua roupa bufante, máscara e bola de borracha, se tornaram o grande símbolo do carnaval carioca.

Criado em 2023, o Gurilouko tem conquistado uma nova geração de foliões, com mais de 80 mil seguidores no Instagram. Organizando encontros e caminhadas, o grupo leva o encanto dos antigos Gorilas do saco às ruas. Em janeiro, a Tropa do Gurilouko se apresentou no MAC-SP, no 38º Panorama de Arte Brasileira.

Rafael Menezes, um dos fundadores, explica que cada fantasia consome entre 17 mil e 20 mil sacolas plásticas. O processo começa com um casaco e uma calça, nos quais são feitos furos para acomodar tiras de sacola, criando o efeito volumoso característico dos Gorilas.

Luzé Gonçalves, artista e dramaturga, que também vive a tradição, acredita que o personagem foi mal visto devido ao seu histórico de violência. Para ela, o Gorila de saco simboliza a resistência cultural dos mais marginalizados, aqueles que não tinham recursos para criar um Clóvis. Em “Mandinga de Gorila”, um curta-metragem dirigido por Luzé, ela explica que os gorilas surgiram como uma alternativa criativa e acessível para quem queria participar do carnaval, mas não podia investir nas fantasias caras.

Desmistificando estigmas

Hoje, os Gorilas de saco ressurgem através de grupos como o Gurilouko, buscando revitalizar a tradição de forma não-criminosa no carnaval de rua. Para Luzé, a dignidade histórica do Gorila de saco deve ser defendida, e seu renascimento é uma forma de desmistificar os estigmas que ainda envolvem a fantasia.

— Sabemos que há diferença entre o Clóvis e o Gorila, mas ambos têm seu espaço no carnaval. Afinal, somos todos apenas crianças atrás das máscaras — afirma Rafael.

*Com informações de Extra

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *