Boas Festas, Feliz Natal

Já tive fases distintas em relação aos sentimentos que envolvem meu coração nesse período de fim de ano. Quando era criança, achava uma data incompreensível pela diferença entre os “presentes” que ganhávamos eu e outras crianças próximas; e por não entender bem o sentido daquele evento.
Mais tarde, quando conheci a identidade secreta do “bom velhinho“, passei a avaliar o período apenas como mais uma data comercial, que seria incapaz de dar alegria aos “despossuídos”.

Hoje, no entanto, já estabilizado e com muito mais memórias de vida do que projetos a realizar, consigo distinguir algumas nuances desta comemoração religiosa. Entendo que os presentes que ganhei em minha infância estavam plenos de amor e de carinho dos parentes por uma criança que sabiam ter um
caminho espinhoso em função da paralisia infantil. Também, que os muitos livros, especialmente presenteados por minha querida prima/madrinha, foram de fundamental importância, como equipamentos intelectuais para minha independência e desenvolvimento.

Mas, como acredito ocorrer com quase todas as pessoas em algum mês específico, dezembro me traz memórias de muitos extremos. A começar por ter sido infectado pela poliomielite, neste mês, em 1957. Isso tornou os obstáculos mais poderosos em muitos sentidos, desde a redução do espectro de
oportunidades laborais, funcionais, até os preconceitos, repulsas mesmo, no que tange às relações interpessoais e afetivas.

Também nesse mesmo mês, quando com 20 anos, em 1977, passei por uma experiência devastadora, de exclusão em duas oportunidades de emprego em um golpe poderoso do preconceito exarado por um médico da Petrobras (RegapBetim). E ele ainda teve a arrogância de sugerir que eu, a quem ele estava
cometendo a injustiça de descartar em função da pólio, não lhe estragasse o Natal. Foi uma marca dolorosa que carreguei por alguns anos.

Por outro lado, não há como não observar que, em dezembro, nasceram pessoas incríveis que, com arte, engenho e inteligência, ajudaram a transformar positivamente o mundo, como D. Pedro II, Nostradamus e Visconde de Mauá; escritores como Alceu Amoroso Lima, Gustave Flaubert e Olavo Bilac; o pintor Portinari; artista geniais como Walt Disney, Frank Sinatra, Beethoven, Spielberg, Christina Aguilera, Ângela Ro Ro, Emilio Santiago, Rita Lee, Cláudia Raia, Luma de Oliveira e o fenomenal Sílvio Santos; entre tantos outros. Isso sem falar na mãe de meu filho e na minha amada esposa, companheira de quarto de século.

Para além de todos esses nomes, em dezembro se comemora o nascimento da única pessoa que passou pela terra e criou o mais importante marco de nossa história: antes e depois dele, Jesus Cristo; a quem devemos a homenagem especial do dia 25 em honra daquele que entregou a própria vida pela liberdade e pelo direito de viver a tantos.

Que sejamos, então, conscientes e fortes o suficiente para reconhecer a divindade desse amor. E assim, festejar esse nascimento, comemorar com alegria e disposição um dia de vitória do bem contra os preconceitos, perseguições e desamor. Que seja, de verdade, um Natal muito feliz e que as festas sejam memoráveis.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

Whatsapp: (61) 99286-6236

Instagram: Mario S R Ananias (@mariosrananias) • Fotos e vídeos do Instagram

Linkedin: (34) Mário Sérgio Rodrigues Ananias | LinkedIn

Site: Mário S. R. Ananias – Sobre Viver com Pólio (mariosrananias.com.br)

Related post

1 Comment

  • Mário, ao ler seu relato, vejo refletida a força de alguém que transformou desafios em aprendizado e superação, sempre buscando um olhar mais humano e profundo sobre a vida. Sua capacidade de ressignificar memórias, extrair beleza das adversidades e reconhecer as nuances que moldaram seu caminho é inspiradora.

    Admiro o modo como você conecta sua história pessoal com a grandeza de figuras que marcaram o mundo, mas, sinceramente, entre todos esses nomes citados, nenhum brilha mais para mim do que o seu. Sua inteligência, sensibilidade e resiliência são presentes que espalham luz por onde você passa. Você é um exemplo vivo de que as marcas do passado podem se transformar em força, dignidade e amor. É uma honra compartilhar o privilégio de conhecer uma alma tão rica como a sua.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *